Quais frutos esse período de isolamento social está trazendo para sua vida espiritual, autoconhecimento e amadurecimento pessoal? Atualmente essa pergunta tem sido muito comum. Por nos ter tirado do lugar de costume, temos a tendência de julgar essa experiência apenas como negativa, não estávamos acostumados a passar tanto tempo apenas em nossa companhia.

Podemos comparar este período como um tempo de deserto, pois, apenas consideramos este tempo como de solidão e árido, porém é necessário ressignificar e olhar além. Se fizermos uma análise à luz do Santo Espírito, podemos buscar na Sagrada Escritura consolo e nos aprofundarmos na riqueza do tempo de deserto, Jesus se retirava todas as vezes que necessitava entrar em profunda oração e ter um, contato
maior com Deus. Ele usava ainda este tempo para se preparar para as missões mais desafiadoras. Antes de sua Paixão, Ele se retirou ao deserto para se esvaziar e entrar em contato mais íntimo com Deus, o Pai nos fala no silêncio e com mansidão.

Voltando a nossa realidade imperativa de isolamento social motivado pelo corona vírus, fomos forçados a entrarmos em íntimo contato com nossa individualidade, cada um pôde decidir permanecer na superficialidade, se limitando a acompanhar as redes sociais, lives e notícias do mundo. Mas, tivemos a oportunidade também de escolher mergulhar com profundidade na nossa história para fazermos uma releitura dos acontecimentos da vida. Utilizando um olhar diferente, agregando o que nos foi oferecido a longo dos anos para revisitarmos nossos valores e tirarmos novos aprendizados de acontecimentos passados.

Foi possível também caminharmos por estradas não acessadas, porque até então não tínhamos as ferramentas corretas para adentrarmos estes espaços e assim desvelarmos o que até então nos era oculto. E só podemos adquirir estas novas ferramentas com a ajuda de Deus, sozinhos, jamais iremos conseguir. Quem fez este caminho de mergulhar na vida e refletir, passando a limpo tudo vivido até hoje desfrutou
de uma caminhada deliciosa, porém dolorosa.

O autoconhecimento e amadurecimento é um processo intenso, o qual gera incômodo, nos tira da zona de conforto, nos coloca diante de um espelho sem máscaras, esta ausência de subterfúgios nos conecta com nosso verdadeiro eu, desde o que há de mais belo em nós, até o que há de mais vil e vulnerável. Admitir a pequenez da nossa humanidade, nossas fraquezas e misérias é desconfortável e é exatamente por isso, que ao longo da vida vamos adotando as máscaras que nos protegem de nós mesmo. Mas, apenas sem anteparos podemos visualizar o que precisa de conserto, o que precisa ser expurgado e o que precisa ser ressiginificado. Diante de tanta intensidade precisamos decidir que este olhar para trás, este movimento de selecionar na nossa bagagem da vida apenas o que é necessário e de ter coragem de jogar fora o peso desnecessário, não seja uma experiência que aprisione na lamentação dos erros e escolhas erradas. É preciso decidir que os acontecimentos que ficaram para trás é apenas o local de onde partirmos e para onde não devemos voltar.

Quando nos vemos como realmente somos e admitimos nossa infinidade de defeitos, temos a chance de olhar o outro com mais empatia, temos a oportunidade de entender sem julgar, de acolher sem restrição e de pegar na mão e ajudar a levantar ou ainda a permanecer caminhando. Passamos a entender que não há nenhum defeito no outro que não possa existir também em nós. Então, o isolamento social não deve nos aprisionar em nós, mas deve servir de mola propulsora para irmos de encontro ao outro e de reconciliação com as pessoas que passaram na nossa história, sem necessidade de que esta reconciliação seja pública, mas que aconteça na nossa intimidade e traga paz para o nosso coração.

Respondendo à pergunta lá do comecinho, eu viajei por cada pedacinho da minha história, revisitei vários lugares, adentrei museus de acontecimentos não visitados antes, porque não tinha a chave para abrir estas portas. Aproveitei para me colocar no colo e cuidar de mim, esvaziei as malas que não cabiam mais serem carregadas. Fui guardando cada experiência no armário correto, enxerguei que um tanto de coisa não vale a pena ser carregado. Aprendi a não mais me culpar por ter escolhido caminhos que me fizeram sofrer. Recolhi todas as lágrimas já derramadas e reguei o jardim da minha vida. Entendi que não podemos ter um jardim eternamente só com flores, que as ervas que crescem, servem para serem colhidas e transformadas em adubo para fomentar o crescimento das flores e frutos. Foi um período paradoxal, pois na estação mais seca, cresceram as mais belas flores e colhi os frutos mais doces.

 

Sandra Fernandes 

Missionária Consagrada de Aliança